
O assombro de Louis ao ver Prior dominado pelo invasor – o vírus da AIDS – pode ser compreendido analogamente pela cultura do medo a que ele e todo americano foram submetidos. Devido a estes fatores, é possível dizer que os vários povos que migraram para a América do Norte acabaram se constituindo em comunidades tão individualizadas e autônomas como se cada uma fosse um corpo social diferente. E mesmo não tendo suas fronteiras uma linha demarcatória visual e oficial, de modo a indicar seus territórios, estas comunidades, vindas de várias partes da Europa, trouxeram juntamente com seus valores tradicionais, as fronteiras mentais que separavam um povo do outro, negando assim, a existência de uma unidade maior chamada América.
De fato, a história do povo americano é uma história que começou com imigrantes; desenvolveu-se com imigrantes, e consolidou-se como potência mundial através da imigração. Entretanto, vale ressaltar que a chegada de cada comunidade não significou na união, e principalmente na aceitação de um grupo pelo outro, de todos aqueles que cruzaram o atlântico em busca do sonho americano. Em Angels in America, o discurso do Rabino durante o funeral da avó de Louis, revela que:
...aqueles que cruzaram o oceano, que trouxeram conosco para a América as vilas da Rússia e Lituânia – e da forma como nós lutamos, e brigamos pela família, pelo lar judaico, foi para que você não crescesse aqui, neste lugar estranho, no caldeirão fervilhante onde nada se misturou. Descendentes desta imigrante, vocês e seus filhos não cresceram na América. Vocês não vivem na América.
Analogamente, esta postura de autopreservação em Louis espelha, de algum modo, a mesma fobia que os gregos tinham em relação ao contato com os outros – “estranhos, incultos, ameaçadores e bárbaros”. Os valores internalizados de cada personagem entram em colisão a partir do momento que as diferenças culturais afloram.
É por isso que Louis após abandonar Prior tenta amenizar a dor de consciência que o aflige procurando inicialmente ajuda exatamente dentro de sua comunidade judaica. Ao perguntar o que as Escrituras Sagradas dizem a respeito de uma pessoa que abandona alguém que ama em um momento de dificuldade, Louis deixa transparecer um sentimento tipicamente judaico – a culpa. O Rabino percebe que aquilo que Louis busca não pode ser encontrado no judaísmo, mas somente no catolicismo – o perdão. “Mas eu não sou católico, eu sou judeu”, argumenta Louis. “Azar o seu, Católicos acreditam no perdão. Judeus acreditam na culpa” rebate conscientemente o líder religioso.
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