sábado, 26 de maio de 2007

Angels in America (4)


O assombro de Louis ao ver Prior dominado pelo invasor – o vírus da AIDS – pode ser compreendido analogamente pela cultura do medo a que ele e todo americano foram submetidos. Devido a estes fatores, é possível dizer que os vários povos que migraram para a América do Norte acabaram se constituindo em comunidades tão individualizadas e autônomas como se cada uma fosse um corpo social diferente. E mesmo não tendo suas fronteiras uma linha demarcatória visual e oficial, de modo a indicar seus territórios, estas comunidades, vindas de várias partes da Europa, trouxeram juntamente com seus valores tradicionais, as fronteiras mentais que separavam um povo do outro, negando assim, a existência de uma unidade maior chamada América.


De fato, a história do povo americano é uma história que começou com imigrantes; desenvolveu-se com imigrantes, e consolidou-se como potência mundial através da imigração. Entretanto, vale ressaltar que a chegada de cada comunidade não significou na união, e principalmente na aceitação de um grupo pelo outro, de todos aqueles que cruzaram o atlântico em busca do sonho americano. Em Angels in America, o discurso do Rabino durante o funeral da avó de Louis, revela que:
...aqueles que cruzaram o oceano, que trouxeram conosco para a América as vilas da Rússia e Lituânia – e da forma como nós lutamos, e brigamos pela família, pelo lar judaico, foi para que você não crescesse aqui, neste lugar estranho, no caldeirão fervilhante onde nada se misturou. Descendentes desta imigrante, vocês e seus filhos não cresceram na América. Vocês não vivem na América.


Visto por este prisma, não se pode negar que Louis, como um descendente de Judeus, carrega dentro de si, os valores tão enaltecidos acima de seus ancestrais. Mesmo que em alguns momentos ele renegue sua origem, ao se deparar com o imprevisível, como a doença de Prior, ou com uma situação conflitante, como na cena em que para se defender da insinuação de racismo feita por Belize a acusa de anti-semita, todos aqueles valores adormecidos emergem como forma protetora para evitar a sua autodestruição.

Analogamente, esta postura de autopreservação em Louis espelha, de algum modo, a mesma fobia que os gregos tinham em relação ao contato com os outros – “estranhos, incultos, ameaçadores e bárbaros”. Os valores internalizados de cada personagem entram em colisão a partir do momento que as diferenças culturais afloram.


É por isso que Louis após abandonar Prior tenta amenizar a dor de consciência que o aflige procurando inicialmente ajuda exatamente dentro de sua comunidade judaica. Ao perguntar o que as Escrituras Sagradas dizem a respeito de uma pessoa que abandona alguém que ama em um momento de dificuldade, Louis deixa transparecer um sentimento tipicamente judaico – a culpa. O Rabino percebe que aquilo que Louis busca não pode ser encontrado no judaísmo, mas somente no catolicismo – o perdão. “Mas eu não sou católico, eu sou judeu”, argumenta Louis. “Azar o seu, Católicos acreditam no perdão. Judeus acreditam na culpa” rebate conscientemente o líder religioso.

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