Falar de aids como sinônimo de morte tornou-se, felizmente, um recurso dramático datado. Mas ANGELS IN AMERICA, que mostra a chegada da síndrome à comunidade gay americana nos anos 80, resistiu ao tempo.
Quando a notícia da existência da AIDS desencadeou reações como o pânico, a negação do perigo e teorias conspiratórias e moralistas sobre uma vingança da natureza contra os excessos da liberdade sexual, ANGELS IN AMERICA enxerga mais longe. Em seu soberbo painel da vida americana, em que aborda política, sexo, religião, moral e racismo, mostra que era fina a camada da tolerância que escondia os ódios e os preconceitos. A idéia de uma sociedade americana ética e civilizada estava por um triz.
Com a proximidade da morte — a deles ou a de alguém que amam —, os personagens dão de cara com verdades trancadas no armário para satisfazer a cultura do sorriso cândido e do sucesso obrigatório. Vêem-se às voltas com homossexualismo, desejo, solidão, depressão e dependência química. Joe (Patrick Wilson), que é mórmon, reza para que Deus o quebre em mil cacos e o reconstrua, para ele não precisar admitir que é homossexual. Sua mulher, Harper (Mary-Louise Parker), toma Valium e tem alucinações para não enxergar que seu casamento é de mentira. Tony Cohen (Al Pacino),
inspirado num personagem real, ex-diretor da CIA, ameaça destruir a reputação do médico caso ele insista em pronunciar o diagnóstico: “AIDS é uma doença de homossexuais. O que me define não é com quem eu trepo, mas quem me atende ao telefone e quem me deve favores”, sibila ele, num resumo da mentalidade que vai triunfar. Criados no fim da década de 80, os personagens de ANGELS IN AMERICA soam tristemente proféticos, diante da face dura que os Estados Unidos adquiriram. Os anos 90 serão o triunfo do conservadorismo, promete um personagem, obscuro assessor em Washington: “Tudo será tratado à nossa maneira: aborto, defesa, América Central, valores de família. Vai ser o fim do liberalismo, o fim do socialismo do New Deal, o fim do humanismo secular. É o alvorecer de uma personalidade política genuinamente americana”. O jovem Louis (Ben Shenkman), dilacerado de culpa por abandonar o namorado doente, destila sua desilusão com os alardeados valores da democracia: “A única coisa que a esquerda americana pode fazer é viajar nesses fetiches petrificados. Direitos humanos — se a gente ouve Bush (o pai) falar de direitos humanos, o que quer dizer isso? Essa gente toda poderia falar nos hábitos sexuais dos venusianos que dava no mesmo”.
Tal como foi tratada por Kushner, a AIDS é a circunstância que faz vir à tona a índole de um país num certo momento. Tem a função que o nazismo, a peste e a guerra já desempenharam em outros enredos. O retrato que ele traça a partir daí é, além de brilhante, misericordioso. Previu a chegada de uma época em que só a doença ficaria menos ameaçadora, mas tratou de nos lembrar que são, afinal, transitórias as aflições humanas.
(adaptado da Revista Bravo, escrito por Marta Góis).

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